O Acidente Vascular Cerebral (AVC), também conhecido como derrame cerebral, é uma condição frequentemente associada ao envelhecimento. No entanto, o número de jovens acometidos por AVC tem aumentado de forma preocupante nas últimas décadas. Esse crescimento levanta um importante alerta para a saúde pública e exige que repensemos a ideia de que o AVC é um problema exclusivo da terceira idade.

Neste artigo, vamos entender o que está por trás desse aumento, os principais fatores de risco em jovens, os sinais de alerta e, principalmente, como prevenir.

O que é o AVC?

Antes de tudo, é importante compreender o que é um AVC. Ele ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido, causando a morte das células cerebrais. Existem dois tipos principais:

  • AVC isquêmico: causado por obstrução de uma artéria (mais comum); 
  • AVC hemorrágico: causado por ruptura de um vaso sanguíneo (menos comum, porém mais grave).

Tradicionalmente, o AVC é a segunda principal causa de morte no mundo e a primeira de incapacidade permanente. Embora mais comum em idosos, o perfil etário dos pacientes vem mudando.

O que dizem os dados?

Estudos epidemiológicos apontam que o AVC em jovens adultos — definidos como pessoas com menos de 45 anos — cresceu entre 11% e 15% nos últimos 20 anos em países ocidentais. No Brasil, a tendência é semelhante. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares mostra que cerca de 10% a 15% dos casos de AVC ocorrem em pessoas com menos de 45 anos — número que não para de subir.

Mas afinal, por que isso está acontecendo?

Os principais motivos para o aumento do avc em jovens são: 

  1. Mudanças no estilo de vida

A principal explicação está nas transformações comportamentais e sociais das últimas décadas. Sedentarismo, má alimentação, uso excessivo de álcool e tabagismo são comportamentos cada vez mais comuns entre jovens e estão diretamente ligados a fatores de risco como hipertensão, diabetes tipo 2 e obesidade.

Essas condições, que antes eram típicas de pessoas com mais idade, estão aparecendo cada vez mais cedo — e com elas, também o risco de AVC.

  1. Uso de drogas ilícitas

Substâncias como cocaína, crack e até mesmo drogas sintéticas estão associadas ao aumento da pressão arterial e ao estreitamento dos vasos sanguíneos, podendo provocar isquemia ou hemorragia cerebral.

  1. Estresse crônico e saúde mental

Jovens de hoje estão expostos a níveis altos e constantes de estresse, ansiedade e distúrbios do sono — fatores que têm sido cada vez mais associados a problemas cardiovasculares e neurológicos. O estresse libera cortisol em excesso, o que pode contribuir para o aumento da pressão arterial.

  1. Uso de anticoncepcionais e trombofilias

No caso das mulheres jovens, o uso de anticoncepcionais hormonais combinados com fatores de risco como tabagismo ou histórico familiar de trombose pode elevar significativamente o risco de AVC. Além disso, condições genéticas como trombofilias, embora raras, também podem contribuir para eventos cerebrovasculares precoces.

  1. Doenças autoimunes ou cardiovasculares não diagnosticadas

Cardiopatias congênitas, doenças autoimunes (como lúpus) ou outras condições que afetam o sistema vascular podem se manifestar de forma silenciosa na juventude, e só se revelarem após um evento agudo como o AVC.

Sinais de alerta: jovem também precisa saber

Quanto mais cedo o AVC é reconhecido, maiores as chances de minimizar sequelas. Conheça os principais sinais:

  • Fraqueza súbita em um lado do corpo 
  • Dificuldade para falar ou entender 
  • Perda de visão em um ou ambos os olhos 
  • Tontura, perda de equilíbrio ou coordenação 
  • Dor de cabeça súbita e intensa, sem causa aparente

O ideal é lembrar da sigla SAMU:

  • S: Sorriso torto 
  • A: Alteração na fala 
  • M: Movimento (dificuldade de levantar braços ou pernas) 
  • U: Urgência (ligar para o 192 imediatamente) 

Prevenção: o que os jovens podem fazer?

A boa notícia é que o AVC é, em grande parte, prevenível. Algumas atitudes simples no cotidiano já fazem uma grande diferença:

Adotar um estilo de vida saudável:

  • Praticar atividade física regularmente (ao menos 150 min/semana); 
  • Manter alimentação equilibrada, rica em frutas, vegetais e grãos integrais; 
  • Reduzir o consumo de ultraprocessados, gorduras saturadas e açúcares

Abandonar hábitos nocivos:

  • Evitar o tabagismo e o uso de drogas; 
  • Reduzir o consumo de álcool.

Cuidar da saúde emocional:

  • Dormir bem; 
  • Reduzir o estresse; 
  • Buscar ajuda psicológica quando necessário.

Monitorar fatores de risco:

  • Medir a pressão arterial regularmente; 
  • Acompanhar taxas de colesterol e glicemia; 
  • Manter um acompanhamento médico preventivo — especialmente para quem tem histórico familiar. 

O impacto do diagnóstico precoce

Identificar alterações vasculares, predisposições genéticas ou quadros silenciosos como hipertensão precoce pode salvar vidas. Por isso, o check-up neurológico e cardiovascular deve ser considerado uma prática preventiva mesmo entre os mais jovens.

Cada vez mais clínicas e profissionais da saúde têm buscado ampliar o acesso a exames como ecocardiograma, doppler de carótidas e ressonância magnética cerebral, que ajudam a identificar riscos antes que o pior aconteça.

O AVC não tem idade

O aumento de casos de AVC entre jovens é um sinal claro de que precisamos mudar o olhar sobre saúde neurológica preventiva. A ideia de que derrame cerebral é algo distante da juventude já não se sustenta diante da realidade.

É hora de desmistificar, informar e agir. Se você tem menos de 45 anos, o cuidado com o cérebro também é seu e começa agora.