Quando um paciente recebe o diagnóstico de um tumor de hipófise, uma das primeiras preocupações costuma ser imaginar como será feita a cirurgia. Muitas pessoas se surpreendem quando explico que, em determinados casos, conseguimos chegar até a hipófise utilizando uma via natural: o nariz.
A cirurgia endoscópica endonasal, também conhecida como cirurgia transesfenoidal endoscópica, permite acessar a região da hipófise passando pelas cavidades nasais e pelo seio esfenoidal, na base do crânio. Dessa forma, não é necessário realizar uma abertura externa do crânio para alcançar o tumor.
Onde fica a hipófise?
A hipófise é uma pequena glândula localizada na base do cérebro, em uma região chamada sela túrcica. Apesar do tamanho reduzido, ela exerce uma função fundamental no organismo, participando da regulação de diversos hormônios relacionados ao crescimento, metabolismo, reprodução, resposta ao estresse e funcionamento de outras glândulas.
Por sua localização, tumores nessa região podem afetar a produção hormonal e, quando crescem, comprimir estruturas próximas, especialmente os nervos ópticos e o quiasma óptico. Por isso, alguns pacientes apresentam alterações hormonais, dores de cabeça ou problemas na visão, como perda do campo visual.
Como é possível chegar ao tumor pelo nariz?
A via endonasal utiliza o caminho anatômico que passa pelas cavidades nasais até o seio esfenoidal, uma cavidade localizada na base do crânio, próxima à hipófise.
Com o auxílio de um endoscópio, consigo visualizar a região em detalhes e utilizar instrumentos delicados para acessar a lesão. A cirurgia é planejada a partir das imagens de ressonância magnética e, em muitos casos, também utiliza sistemas de neuronavegação para auxiliar na orientação espacial durante o procedimento.
Essa abordagem faz parte da evolução das técnicas de cirurgia da base do crânio, permitindo uma visualização ampla e detalhada da região operada.
Quais são as vantagens da técnica endoscópica?
A principal característica que considero importante nessa abordagem é o acesso minimamente invasivo à região da hipófise.
Como o acesso é feito pelas cavidades nasais, não há uma incisão externa no couro cabeludo nem uma craniotomia convencional. A técnica também permite uma visualização ampliada do campo cirúrgico, inclusive de regiões que podem ser difíceis de observar diretamente.
Dependendo das características do tumor e das condições clínicas do paciente, a abordagem pode proporcionar menor agressão às estruturas externas e uma recuperação mais rápida do que acessos cranianos mais invasivos.
Todo tumor de hipófise precisa de cirurgia?
O diagnóstico de um tumor de hipófise não significa automaticamente que o paciente precisará ser operado. Antes de indicar qualquer tratamento, avalio o tipo de tumor, seu tamanho, crescimento, produção hormonal, relação com o nervo óptico e outras estruturas próximas, além dos sintomas apresentados pelo paciente.
Alguns tumores podem ser acompanhados com exames periódicos. Em determinados tipos, o tratamento medicamentoso é a primeira escolha. É o que ocorre, por exemplo, com muitos prolactinomas, nos quais medicamentos chamados agonistas dopaminérgicos costumam ser utilizados inicialmente.
Quando a cirurgia é indicada, a via endoscópica endonasal é frequentemente utilizada para alcançar a região da hipófise.
E quando a cirurgia é indicada?
A indicação varia conforme o tipo de tumor. Em alguns pacientes, a cirurgia pode ser necessária diante de compressão das vias ópticas, crescimento significativo da lesão, alterações hormonais relacionadas ao tumor ou determinadas características do tumor que tornam a intervenção necessária.
Em tumores não funcionantes, por exemplo, a cirurgia costuma ser considerada principalmente quando há crescimento, sintomas ou comprometimento de estruturas próximas, especialmente da visão.
Já nos tumores produtores de determinados hormônios, como os associados à doença de Cushing ou à acromegalia, a cirurgia pode ter papel central no tratamento. A estratégia, porém, deve ser definida de acordo com o diagnóstico endocrinológico e as características anatômicas da lesão.
O que eu avalio antes da cirurgia?
Antes de indicar o procedimento, faço uma avaliação detalhada do paciente e das imagens.
A ressonância magnética da região da hipófise é fundamental para entender o tamanho do tumor, sua extensão e sua relação com estruturas importantes. Também é necessário avaliar a função hormonal da hipófise e, quando indicado, realizar uma avaliação oftalmológica com investigação do campo visual.
Essas informações me ajudam a entender o comportamento da lesão e a planejar a estratégia cirúrgica mais adequada.
A cirurgia também exige cuidado com a própria hipófise
Durante o procedimento, um dos meus objetivos é remover o tumor sempre que isso puder ser feito com segurança, preservando a hipófise normal e as estruturas neurológicas próximas.
Essa região fica muito próxima dos nervos ópticos, das artérias carótidas e de estruturas importantes do cérebro. Por isso, mesmo sendo uma técnica minimamente invasiva, a cirurgia exige planejamento detalhado, experiência e atenção à anatomia de cada paciente. Entre as possíveis complicações estão alterações hormonais, vazamento de líquido cefalorraquidiano e, mais raramente, lesões vasculares ou neurológicas.
O acompanhamento depois da cirurgia também é importante
Depois do procedimento, acompanho a evolução clínica, os níveis hormonais e os exames de imagem. Dependendo do tipo de tumor e da quantidade de lesão removida, pode ser necessário manter acompanhamento endocrinológico, realizar novas ressonâncias ou considerar tratamentos complementares.
Em alguns casos, pode permanecer uma pequena quantidade de tumor porque sua retirada completa representaria um risco maior para estruturas importantes. Nessas situações, o acompanhamento ou tratamentos complementares podem fazer parte da estratégia.
Uma técnica moderna, planejada para cada paciente
A cirurgia endoscópica endonasal representa um importante avanço no tratamento de tumores da região da hipófise e da base do crânio. Utilizar as cavidades nasais como via de acesso permite chegar a uma região profunda do crânio sem a necessidade de uma abertura craniana convencional em muitos casos.
Mas a tecnologia precisa estar associada a uma indicação precisa e a um planejamento individualizado. Cada tumor tem suas próprias características, e a escolha do tratamento deve considerar tanto o controle da doença quanto a preservação das funções neurológicas e hormonais.
Quando avalio um paciente com tumor de hipófise, meu objetivo é reunir as informações clínicas, hormonais e radiológicas para definir a estratégia mais segura e adequada para aquele caso.

